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Muitas vezes a sustentabilidade não passa de técnicas de marketing”

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Muitas vezes a sustentabilidade não passa de técnicas de marketing” 27-04-2013

Luís Mendes, do Empty Space Arquitectura, atelier que já venceu três prémios internacionais, entre as quais um que destaca a sustentabilidade da Casa Godiva, considera que “muitas vezes a sustentabilidade não passa de técnicas de marketing”. “Como as pessoas andam tristes, não querem fazer coisas boas”, lamenta o arquiteto que sonha com recuperar os espaços urbanos dos centros das principais cidades portuguesas.

EE: O que é a arquitetura racional?
Luís Mendes: É um modelo arquitetónico que tenta explorar ao máximo o rigor do desenho com a associação de materiais nobres, como pedra, aço e ferro, e algumas novas tecnologias de construção ligadas à sustentabilidade.

A Casa Godiva, que já ganhou dois prémios internacionais, foi pensada para dois utentes com mobilidade reduzida. O que foi feito neste caso para ser uma casa amiga do utente?
Todas as casas têm de ser amigas do utente, caso contrário é um exercício falhado (...) A arquitetura racional define-se muito pelo rigor do desenho, ou seja, tudo é desenhado ao pormenor - nada ou quase nada é de série - para satisfazer a exigência de um determinado cliente, o que obriga ao desenho global dessa peça arquitetónica. Uma pessoa de mobilidade reduzida vai um pouco ao encontro disso, ou seja, o espaço e os pormenores da casa têm de ser pensados para que não sejam ruído no ato de caminhar. Os corredores e os vãos das portas são um pouco mais largos (...) as portas na cozinha abrem de uma forma muito mais simples do que a convencional, as casas de banho são pensadas para que possam fornecer qualidade de vida sem ter aquele armamento bélico que estamos habituados a ver em instalações sanitárias para quem tem mobilidade reduzida e que parece que estamos a entrar numa nave espacial ou num tanque bélico. Quando a mim, é um erro a utilização da maior parte desses acessórios que não ajudam o utente, por vezes até tornam a vivência mais complexa, e a nível visual deixam muito a desejar. Esta casa tentou ser uma nova forma de habitar para essas pessoas que têm mobilidade reduzida e, por aquilo que os proprietários me dizem, tem existido uma boa relação entre o objeto arquitetónico e o ser humano com essas características.

Que tecnologias de construção foram necessárias aplicar para que a casa tivesse uma certificação energética A+?
Não se pode falar em tecnologias, têm de falar antes em ato de projeto. Muitas vezes essa história da sustentabilidade não passa de técnicas de marketing, porque no fundo as habitações são exatamente iguais às outras, são um bocado mais isoladas ou menos, por exemplo. Uma construção para ter um patamar elevado a nível arquitetónico com linguagem contemporânea e ter um grau de sustentabilidade bom ou excelente como é o caso desta A+ - e se mais houvesse ainda mais tinha –, no ato do projeto, temos de pensar como é que vamos trabalhar essa sustentabilidade, que vai reduzir a longo prazo os custos de manutenção do edifício. E quando estamos a falar de manutenção também estamos a falar em produção de calor e energia. Nesta questão da sustentabilidade, desde a sapata até à platibanda, tudo está vinculado através do sistema ETICS, que é o sistema de isolamento térmico pelo exterior. Estamos a falar da parte passiva, que é a parte mais importante, porque há a ativa, que é todo o isolamento térmico que produz calor. A passiva é mais importante, ou seja, como é que através da arquitetura, através da criação de espaços e de conceitos, podemos tornar a casa mais agradável e mais sustentável, ou seja, quente quando tem de ser quente e fresca quando tem de ser fresca. Em complemento vêm todas as infraestruturas mecânicas dos painéis solares fotovoltaicos, das bombas de calor, dos pavimentos radiantes, dos vidros térmicos (...).

A Casa Godiva já ganhou uma menção honrosa no Prémio Internacional de Arquitetura Sustentável “ Green Dot Awards” e o prémio na categoria de “Best Residencial Building in Europe 2012”, dos “International Design and Architecture Awards 2012″ e recentemente a vossa empresa foi distinguida pelos IDA-International design Awards 2012 na categoria de arquitetura. O que é que o júri destacou nestes casos?
São concursos diferentes. O “Green Dot Awards” tem a ver com a forma como a arquitetura contemporânea, através de grandes áreas de vidro, consegue responder a objetos energeticamente excelentes a nível de desempenho. (…) O “Green Dot Awards” é um prémio que premeia a arquitetura, mas também muito a parte térmica e ecológica da casa e os materiais que utilizamos. Os outros permeiam muito mais a parte arquitectónica.

Inserir a casa num terreno de pinhal de forma triangular e inclinado foi o maior desafio?
Conseguem os melhores resultados a trabalhar numa base sempre à mesma quota aqueles que não querem ter o esforço de tentarem arquitetura. O que eu vou dizer é uma questão pessoal: é mais difícil e pior uma arquitetura sempre à mesma quota do que terrenos com revelo. O trabalho é maior, mas a criatividade é melhor e muitas vezes o objeto arquitetónico também é muito mais esbelto, tem outra dinâmica e o ruído próprio de se ajustar ao terreno. Nesta casa, estando no meio do pinhal, o terreno era constituído por três bases diferenciadas por taludes e a casa veio adaptar-se a esse terreno. O terreno de quota mais alto corresponde àquele que tem ligação à via de circulação em estrada, o intermédio é o terreno onde está o piso de baixo, ligado às infraestruturas das hidroterapias, fisioterapias, áreas técnicas, um espaço de escritório e biblioteca, e depois temos a quota mais baixa que é todo o espaço de horta biológica.

Qual foi a maior dificuldade?
O arquiteto não pode encontrar dificuldades no ato de criação. Tenta responder a um programa que tem várias premissas e tem uma condição que é muito dolorosa, o fator do orçamento que tem para trabalhar. Há uma regra base na minha forma de projetar: o terreno não tem de se adaptar ao objeto, o objeto arquitetónico é que tem que se ajustar àquilo que o terreno dita. (...) O orçamento e às vezes alguma parte burocrática camarária são as grandes dificuldades.

No seguimento destes prémios tem tido algumas manifestações de interesse e projetos a nível nacional e internacional?
A nível nacional não e tenho pena. Também estamos a passar por uma grave crise monetária ou financeira. Como as pessoas andam tristes, não querem fazer coisas boas e também não têm vontade de o fazer. Pelo menos, eu tento agradar-me a mim próprio pensando assim: a crise financeira e esta má disposição no investidor e na população portuguesa não nos vai fazer curvar. A nível internacional, temos tido uma ou outra resposta, já produzimos algum trabalho ao nível de estudo prévio e propostas para um ou outro cliente.

A estratégia da empresa deverá ser internacionalizar-se?
A estratégia da empresa não é uma estratégia parra se internacionalizar, mas vai-se internacionalizar conforme os clientes que houver. Agrada-me pensar também no mercado nacional, porque há muita coisa para se fazer. Tenho grande vontade de tratar, através do ato do projeto, dessa dialética entre a arquitetura e a sustentabilidade, recuperar – não estou a falar de fazer maquilhagem ou de lifting, mas recuperar a sério – o espaços urbanos dos centros das principais cidades portuguesas,  dotar os edifícios com uma nova linguagem do que é que habitar no século presente mas mantendo esteticamente a cara deles com um pouco daquilo que é a história urbana de Portugal. Mas é preciso investimento.

Esse trabalho envolverá também as autarquias?
Não, a autarquia tem de se limitar a aprovar ou não o projeto. O investimento terá de ser privado, mas as autarquias deviam pensar em trabalhar em conjunto com os investidores e com os técnicos que ajudam os arquitetos ou engenheiros e não tentar bloquear, como acontece às vezes, processos com tempos de espera que são completamente desmotivantes para um investidor. (...) Devíamos alterar um pouco isso, porque senão vamos continuar a ser o país que somos.

Porque é que a Empty Space Arquitectura dá nomes de chocolates às casas?
A regra neste atelier é que a arquitetura unifamiliar tem nome de chocolate. Ter uma habitação unifamiliar desenhada para responder principalmente àquilo que são os sonhos da família exige algum suporte financeiro e quem o tem parece que tem orgulho em querer essa peça arquitetónica de autor pensada exclusivamente para o seu espaço e para a sua vivência e isso é um bombom. Depois damos o nome de cholocate em conformidade com o cliente. (…) Nem todos podemos ter uma casa exclusiva para nós. Na maior parte das vezes adaptamo-nos àquilo que já existe. Fazemos um grande erro que é a decoração dos espaços a tentar alegrá-los, torná-los mais pessoais, mais com a nossa forma de viver.

Pode visitar o site da Empty Space Architecture aqui e encontrar fotografias da Casa Godiva aqui.


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