28-03-2013
Carlos Jesus, CEO da Bright Solar, a primeira empresa a apostar em estações de carregamento solar para veículos elétricos em Portugal, diz que não é a crise que está a afetar este setor, mas antes uma enorme falta de informação. Para o empresário, também responsável pela ZEEV, a marca para a mobilidade sustentável da Bright Solar, o Estado devia dar o exemplo, mas contínua a comprar carros com motor de combustão.
EE: Desde o início do ano que disponibiliza várias estações de carregamento solar. Quantas são e onde é que estão localizadas?
Carlos Jesus: Uma, na Lourinhã. Estamos a preparar-nos para ter uma segunda em Lisboa e esperamos que até final de abril esteja concluída.
Um condutor de carro elétrico que não seja vosso cliente também pode recorrer a esta estação?
Não é o caso desta empresa. Se for um cliente ou visitante da empresa pode usufruir de energia gratuita, mas não se trata de um parque público, ou seja, não é um carregamento na via pública.
Conta com apoios do Governo para construir estas estações?
Não.
Recentemente realizaram a primeira viagem Lisboa-Aveiro-Lisboa com um carro totalmente elétrico, o Tesla Roadster. Como é que correu?
Foi uma viagem que foi feita a uma média de 110 km/h sem paragens. A bateria deu para toda a viagem.
Isto vem desmistificar a ideia de que os carros elétricos não têm muita autonomia.
Mas isso é verdade, não têm de facto muita autonomia. Estamos a falar de um carro muito concreto, topo de gama, de uma marca que tem a melhor tecnologia do mercado. Não é uma viatura comum, tem uma autonomia significativa e custa cerca de 125 mil euros.
De que forma é que crise se tem reflectido no setor dos carros elétricos?
Em primeiro lugar não diria que é a crise, diria que a dificuldade na aquisição dos carros elétricos passa por uma grande falta de informação, falta de experiência e falta de descobrir novas soluções, que é o que nós tentamos fazer, desmistificar vários receios que as pesosas tenham da viatura elétrica, que não anda, não tem força, não tem autonomia, não é suficiente. Há de facto uma falta de informação muito grande. Por outro lado, o acesso hoje ao financiamento – e sabemos que as viaturas elétricas têm um custo ainda bastante superior a uma viatura de combustão equivalente – é um factor que, de certa forma, penaliza as vendas, sobretudo se compararmos com outros países da UE. Também a Noruega, por exemplo, que não tem qualquer imposto, incluíndo o IVA, de forma a fomentar a compra de veículos elétricos. Nós somos o país com o IVA mais alto, o que também encarece. Para adquirir um carro elétrico, Portugal é efectivamente o país mais caro.
A Noruega também oferece estacionamentos gratuitos para carros eléctricos.
Portugal também. Apesar de neste momento não estarem a ser atribuídos esses dísticos, apenas por uma questão legal, existe a possibilidade de estacionar em qualquer parque de estacionamento da EMEL de forma gratuita com um veículo elétrico independentemente de estar à carga ou não.
A Bright Solar está a internacionalizar-se para o Brasil. Em que fase é que está o processo?
Ainda numa fase muito inicial. Estamos neste momento a implementar um negócio de aluguer de veículos elétricos em Portugal e só depois de termos o modelo testado cá é que iremos dar um passo maior na internacionalização.
Como está o mercado dos carros elétricos em Portugal?
Infelizmente a realidade é má. Tirando organismos como a Câmara Municipal de Lisboa, que fizeram algumas aquisições significativas, têm sido vendidos muito poucos carros e motas.
Recuou nos últimos anos ou tem sido sempre assim?
Tem sido sempre assim, mas é porque não tem havido a divulgação necessária. E depois, porque não se percebe muito bem a própria estratégia a nível governamental relativamente à mobilidade elétrica. O anterior governo tinha uma aposta aparentemente forte na mobilidade elétrica, mas depois parou-a e, de certa forma, abrandou essa aposta, que se refletiu só nos postos de abastecimento na rua e que nem foi concluída. É preciso que o próprio Estado seja um catalisador de todo este negócio, seja o primeiro a dar o exemplo. Temos poucas câmaras municipais ou outros organismos do Estado a adquirirem viaturas elétricas, quando sabemos – sempre foi assim – que tem de ser o próprio Estado a dar a primeiro pontapé de saída e a dizer que esta é a estratégia do país. Falta sobretudo isso. Os clientes dizem que não vemos o Estado, que supostamente é um dos grandes interessados em reduzir a dependência de energia, a comprar veículos elétricos. Continua a comprar viaturas a combustão.
Na sua previsão, quando é que poderemos ver metade dos veículos elétricos ou híbridos em Portugal?
Não sei, porque envolve vários factores. Podemos assistir a um 'boom' mais rápido de veículos elétricos, se for ultrapassada a barreira da autonomia, que apesar de ser muito psicológica, necessita de alguma tecnologia nas baterias ou no carregamento, e a barreira do preço. Se calhar, só daqui a 20 anos.
EE

