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Entrevista: Como ter as casas mais eficientes do mundo a baixo custo?

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Entrevista: Como ter as casas mais eficientes do mundo a baixo custo? 29-07-2013

O engenheiro civil João Marcelino criou a empresa Homegrid para construir duas das casas mais eficientes do mundo, à luz da norma Passive House, que permite poupanças energéticas de 75 por cento com um acréscimo médio no custo de construção de apenas cinco por cento. Já existem cerca de 50000 edifícios Passive House em todo o mundo, sendo que destes apenas 5500 são certificados pelo Passivhaus Institut como é o caso destes em Ílhavo. A Homegrid criou também a marca Wefi-Building, dado que uma das duas casas está também a apostar na eficiência hídrica e na produção de alimentos. Em entrevista, João Marcelino e João Gavião, arquitecto da Homegrid, explicam ainda como é que a Associação Passivhaus Portugal, que ajudaram a fundar, pode ajudar os portugueses.

EE: Quais os requisitos obrigatórios para uma casa ser uma Passive House?
João Gavião: Os requisitos para uma Passive House têm que ver com o desempenho do edifício. O primeiro requisito é a necessidade de energia para aquecimento, que tem de ser inferior a 15kWh/(m²a) ou a carga máxima para aquecimento tem de ser inferior a 10W/m².  Este limite de 10W/m² é o requisito que está por trás na norma Passive House, uma vez que é o limite para que o aquecimento possa ser feito apenas pela energia transportada pelo ar e garantindo a qualidade do ar interior. Devido ao alargamento da norma Passive House a outros climas, foi estabelecido um limite para arrefecimento, que é também de 15kWh/(m²a) ou carga máxima para arrefecimento de 10W/m². Para além destes limites, existe também um limite de energia primária, ou seja, toda a energia utilizada pelo edifício (aquecimento, arrefecimento, ventilação, águas quentes sanitárias, iluminação e eletrodomésticos), que é de 120kWh/(m²a). Depois existe outro requisito obrigatório que é a garantia da estanquidade ao ar do edifício, que tem de ser verificada através de um teste de pressurização do edifício, o blower door test, e o resultado deve ser inferior a 0,6 renovações por hora. Os últimos requisitos são ao nível do conforto do edifício. A temperatura mínima no inverno terá de andar pelos 20 °C e a temperatura máxima no verão nos 26ºC. Não pode ocorrer um excesso de temperatura superior a 10 por cento do tempo.

Nas duas Passive House que já construíram em Ílhavo, a energia é renovável?
João Marcelino: Nas duas casas, estamos numa fase inicial, conforme o plano que definimos, a fazer a monitorização. Parte do sistema solar térmico praticamente fornece as águas quentes sanitárias necessárias para essa casa. Com a monitorização que estamos a fazer, pretendemos transformar pelo menos uma das casas, num futuro próximo, numa House +. E aí vamos incorporar um sistema fotovoltaico adequado às necessidades.

Para manter a temperatura da casa uniforme têm um sistema de ventilação com recuperação de calor. Como é que funciona?
João Marcelino: Como se trata de uma zona próxima do mar e após análise dos dados climáticos, verificamos que só precisávamos de um sistema para o aquecimento do ar e o que foi feito foi a introdução de um sistema de condutas que vai buscar o ar ao exterior e insuflá-lo nos compartimentos de zonas de estar. Só que esse ar, antes de ser insuflado, cruza com o ar que é retirado das casas de banho e da cozinha e há transferência desse calor. Dessa forma, conseguimos ter uma grande eficiência, porque não estamos a desperdiçar a energia existente dentro de casa e garantimos os caudais mínimos de qualidade do ar interior. Este sistema, que faz a renovação do ar com a recuperação de calor, ao mesmo tempo tem uma pequena bomba de calor de 1500 watts que funciona quando não há energia suficiente ou quando há energia em excesso transfere esse calor para um depósito de 180 litros de águas quentes sanitárias. Esta unidade compacta também permite  fazer o arrefecimento. O solar térmico é obrigatório, portanto nós teríamos obrigatoriamente de usá-lo.

E os ganhos em termos de poupança de água como são conseguidos?
João Marcelino: Estamos a falar de uma poupança na ordem dos 75 por cento. Várias estratégias foram adotadas aquando do projeto de construção e algumas vão ainda ser adotadas. A primeira estratégia tem a ver com a utilização de dispositivos de grande eficiência hídrica. Estou a falar de eletrodomésticos, máquinas de lavar roupa ou louça, disponíveis no mercado com o máximo de eficiência hídrica. A segunda estratégia foi a utilização de dispositivos, como torneiras, com caudais que limitassem o consumo de cada dispositivo. Outra estratégia foi fazer a pré-instalação e a instalação de uma rede de água potável e não potável. Utilizamos a água da chuva, com um depósitos de 10 mil litros, para fazer o abastecimento das sanitas, torneiras de rega e de lavagem, que têm uma rede própria. Neste momento estamos a monitorizar para conseguir identificar quais são os consumos de cada dispositivo e a influência que cada estratégia pode ter a médio prazo para conseguir ainda maiores reduções.
 
De que forma é que a produção de agricultura biológica se enquadra no projeto?
João Marcelino: A empresa tem uma visão holística. Olhamos para aquilo que a natureza tem à nossa volta e tentamos rentabilizar e utilizar aquilo que nos é oferecido de forma gratuita. Como tínhamos terreno disponível avançámos com esta estratégia numa das moradias. Estes projetos estão certificados pelo sistema LiderA (Sistema Voluntário para Avaliação da Construção Sustentável) com A+, os primeiros edifícios de habitação a conseguir alcançar esta classificação. Começámos a olhar para as questões culturais, de saúde e de eficiência energética. Não nos podemos esquecer que a maior parte dos alimentos que temos nos supermercados viajam milhares de quilómetros e ao viajarem essa distância têm de ser climatizados, condicionados, gastam recursos. Se conseguirmos reduzir as necessidades de uma família em 30 a 50 por cento, o que nos parece perfeitamente viável tendo em conta os primeiros resultados que estamos a obter, e massificarmos este conceito, ele vai ter um impacto  muito grande. A Europa e Estados Unidos, em termos gerais, estão a gastar os recursos equivalentes a 3,5 planetas, ou seja, não há recursos suficientes se a nossa maneira de viver for copiada pelos países que neste momento estão a crescer. Utilizamos a água disponível para um sistema de rega também eficiente, a rega gota a gota, e tudo o que encaramos como lixo orgânico é colocado no terreno para compostagem. Dessa forma estamos também a fazer uma grande redução em termos do lixo que é colocado nos contentores e enviado para aterros. Quase que funciona – e é esse o objetivo - como um circulo fechado. E já estamos a consumir coisas produzidas no terreno, o que é muito agradável.

João Gavião: Esta estratégia levou à criação de uma marca, o WEFI Building (Water Energy Food Almost Independent Building), que procura dar nome a todo este conceito que está a ser implementado aqui pela primeira vez.
 
É possível uma Passive House nascer de uma casa já construída com algumas alterações?

João Gavião: Sim, só que para cumprir os requisitos Passive House é necessário aplicar todos os princípios que aplicaria num edifício novo e muitas vezes isso pode não ser fácil. No centro da Europa, ter edifícios Passive House reabilitados é algo que começa a ser banal, através da utilização de sistemas certificados pelo Passivhaus Institut.

Depois das duas moradias em Ílhavo, têm projetos para um hotel e um equipamento social. Em que fase estão?
João Gavião: Quanto à unidade turística (alojamento local), na Costa Nova, em Ílhavo, estamos a terminar os projetos e a intenção é iniciar a obra no final do verão ou no início de outubro e procurar concluí-la no início da próxima época balnear. Quanto ao equipamento social, estamos a falar de um edifício com cerca de 3000 m² que engloba lar, centro de dia, creche e apoio domiciliário. Neste momento, após a análise, o processo está para recolha de assinaturas para que seja declarado de interesse público. Numa altura de crise, temos um projeto que é de interesse para o município da Murtosa, para a freguesia do Bunheiro, para as populações, para a entidade que o quer desenvolver e estamos há um ano à espera que as assinaturas sejam recolhidas em três secretarias de estado.

Que mais projetos têm em Portugal?
João Marcelino: Queremos em breve arrancar com um protótipo de um edifício de escritórios. Será o edifício-sede da Homegrid e onde as pessoas de alguma forma poderão sentir conforto e as evidências daqueles consumos hídricos e consumos elétricos e as vantagens que este tipo de edifício tem para o país, porque, se nós conseguirmos disseminar este conceito, penso que facilmente as pessoas percebem o impacto que isto pode ter em termos da economia, de conseguirmos reduzir a nossa fatura energética, dado que, em Portugal, cerca de 30 por cento da energia é gasta nos edifícios. Se nós conseguirmos disseminar este conceito estamos a reduzir as nossas necessidades. Os países do centro da Europa já se aperceberam disso e estão há imenso tempo a trabalhar para resolver este problema, mas as nossas autoridades ainda não acordaram para esta questão.

Mas tiveram contacto com as autoridades para disseminar este tipo de conceitos?
João Marcelino: Nós estamos a seguir um plano definido com o Passive House Institute e temos de ter calma. Essa estratégia está definida para três anos e nesse tempo iremos chegar a esse nível, mas queríamos chegar lá com resultados, de maneira que não existe aquele diálogo que normalmente ocorre muito em Portugal que não leva a nada. Queremos chegar com dados, para que as pessoas não tenham dúvida. Todos têm de tomar consciência da grande vantagem desta norma para todos.

Em novembro criaram a Associação Passivhaus Portugal. Que  trabalho desenvolvem?
João Marcelino: Continuamos com os seminários gratuitos e partir de agora vamos também passar para a formação oficial do Passivhaus Institut, o Certified Passive House Tradesperson, que é um curso muito interessante e está a ter uma excelente adesão. As pessoas aperceberam-se da qualidade do curso e quem passar no exame fica reconhecido em termos mundiais e fica automaticamente numa base de dados mundial. No próximo ano vamos ter um curso direcionado para os projetistas, o Certified Passive House Designer, que permite ao formando adquirir as competências necessárias para conceber edifícios Passive House. Os cursos têm uma grande componente prática.

Para além disso, que tipo de apoios a associação confere a quem quiser ter uma Passive House?
João Gavião: O objetivo da associação é promover e disseminar o conceito em Portugal. Numa fase inicial a atividade da associação prende-se com a divulgação, através dos seminários que vamos continuar a levar a todo o país, pela formação oficial, pela promoção, através de órgãos de comunicações de newsletters, das atividades tanto  nacionais como internacionais, e também pela realização de uma conferência anual Passive House. A primeira vai-se realizar a 30 de novembro deste ano em Ílhavo.

João Marcelino: Neste momento a associação está também a iniciar um trabalho de facilitar a certificação de alguns produtos. Temos muita procura de empresas de caixilharia que querem certificar os seus produtos segundo a norma Passive House. É muito mais barato e muito mais interessante utilizar os recursos disponíveis em Portugal e as empresas também têm muito mais facilidade em utilizar estes laboratórios do que estar a certificar na Alemanha, sendo que por vezes Portugal tem exigências diferentes das que existem no centro da Europa.

Pode encontrar mais informações sobre as Passive House em Portugal e os projetos da Homegrid no site da empresa e mais dados sobre a Associação PassivHaus Portugal aqui.


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